Pacaembu reabre e promete fazer muito barulho no setor de eventos (e na vizinhança)

Primeiros shows ocorrerão no gramado, a partir de março, para um público de mais de 30 000 pessoas

Por Sérgio Quintella Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
14 fev 2025, 06h00
Vista completa do estádio: restauro e novas obras
Vista completa do estádio: restauro e novas obras (Roberto Setton/Veja SP)
Continua após publicidade

Inaugurado em 27 de abril de 1940 e fechado para obras há quase quatro anos, o Estádio do Pacaembu, presente na memória afetiva dos paulistanos e palco de grandes jogos de futebol ao longo de quase nove décadas, está gradativamente sendo reaberto, após sua mais importante transformação.

Concedido em 2019 pela prefeitura à iniciativa privada por um período de 35 anos, ao custo de uma outorga de 111 milhões de reais, o antigo Paulo Machado de Carvalho ganhou um restauro completo em suas estruturas, tanto no campo de futebol, que teve a capacidade das arquibancadas reduzida para 26 000 torcedores (eram cerca de 40 000 lugares quando o tobogã estava de pé), quanto no centro esportivo, composto de pista de atletismo, piscina, duas quadras de tênis e um ginásio.

Fachada tombada: preservação do nome original
Fachada tombada: preservação do nome original (Roberto Setton/Veja SP)

Em contrapartida, além de gerenciar receitas e despesas do complexo até 2054, a concessionária Allegra Pacaembu também pôde negociar os naming rights do estádio, agora chamado oficialmente Mercado Livre Arena Pacaembu. Para poder batizá-lo por trinta anos, o Mercado Livre pagará à Allegra, ao todo, 1 bilhão de reais.

Quem entra pelo portão principal, na Praça Charles Miller, exceto pelo prédio de cinco andares (e quatro subsolos) que ainda está sendo construído, talvez não perceba de forma imediata as reformas feitas nas arquibancadas. Tombado pelos conselhos municipal (Conpresp) e estadual (Condephaat) de defesa do patrimônio, o estádio, juntamente com sua fachada, precisa manter suas características preservadas.

A exceção se deu pelo tobogã, que não estava presente no projeto original e pôde ser derrubado após autorização dos conselhos do patrimônio. Sem poder alterar os traços por cima, a concessionária optou por construir embaixo das arquibancadas e do gramado. Com isso, o complexo ganhou 45 000 metros quadrados de novas áreas.

Quadra de saibro restaurada: aluguel por hora
Quadra de saibro restaurada: aluguel por hora (Roberto Setton/Veja SP)
Continua após a publicidade

Uma delas, com 4 500 metros quadrados, abriga um centro de eventos, batizado de Mercado Pago Hall (uma das marcas do Mercado Livre) e concebido para receber até 8 500 pessoas. Com amplo palco, o espaço, situado embaixo do antigo tobogã, e também de parte do gramado, será acessado por meio de escadas rolantes (todo o complexo ganhou acessibilidade, com rampas, elevadores, espaços e cadeiras especiais) e abrigará shows, eventos corporativos, palestras, feiras, apresentações esportivas e outras atrações.

A partir de março, já estão confirmadas uma luta internacional de boxe, a festa dos melhores jogadores do Campeonato Paulista de Futebol, além da tradicional Feira de Arte do Pacaembu (Arpa). Outras áreas novinhas em folha estão situadas embaixo das arquibancadas leste e oeste (nas laterais do campo). Ali haverá lojas do próprio Pacaembu e do Mercado Livre, além de cafés, lanchonetes, centro de eventos e outros comércios.

Ginásio de esportes: fim da
Ginásio de esportes: fim da “panelinha” (Roberto Setton/Veja SP)

Enquanto planeja colocar para operar o que está pronto, a Allegra corre para entregar até o fim do ano as obras que não eram obrigatórias no caderno de encargos da concessão. Mais importante delas, o prédio que substituirá o tobogã vai abrigar um hotel de luxo operado pela Universal Music. No espaço também haverá um centro de reabilitação esportiva administrado pelo Hospital Albert Einstein, além de escritórios, salão de eventos e uma esplanada de 3 000 metros quadrados, tudo com vista para o campo.

Na cobertura, além de um restaurante (haverá outros seis espalhados pelo complexo), está sendo construída uma passarela, aberta ao público, ligando as ruas Itápolis e Desembargador Paulo Passaláqua, ou seja, interligando os dois lados do bairro. “Enxergo o Pacaembu como distrito de esporte e entretenimento. Queremos que o local seja de destino, não mais de passagem. Antes, as pessoas iam ao estádio, assistiam ao jogo e iam embora. Agora, haverá ofertas de bebidas e alimentos, as pessoas vão poder tomar banho, trabalhar, fazer mais coisas aqui”, afirma Eduardo Barella, CEO da Allegra, que espera receber 5 milhões de pessoas no primeiro ano da operação.

Continua após a publicidade
Piscina reformada: acesso mediante reserva
Piscina reformada: acesso mediante reserva (Roberto Setton/Veja SP)

Vocação principal da histórica edificação, o esporte amador também teve instalações renovadas. Reformados e restaurados, as quadras, piscina, pista e ginásio já estão abertos ao público em geral, como ocorria no passado. Para ter acesso, os frequentadores precisam baixar o aplicativo do Pacaembu e agendar os horários disponíveis.

Além do uso público previsto no contrato (piscina e pista serão gratuitas), a concessionária também vai alugar os espaços para eventos (veja o quadro na página ao lado). A cobrança pelas quadras e ginásio, que já ocorria no passado, vai continuar. Os preços, porém, sofreram reajustes. Em 2019, o aluguel diurno da quadra de tênis descoberta saía por 77,50 reais a hora. À noite, o valor saltava para 111 reais. Agora, custará 180 reais por hora. A quadra de saibro, coberta, será alugada por 250 reais a hora, ante 126,50 reais (diurno) e 152,60 reais (noturno).

Pista de atletismo: até 1 500 pessoas por dia
Pista de atletismo: até 1 500 pessoas por dia (Roberto Setton/Veja SP)

No passado, porém, a principal queixa de frequentadores “de fora” era de que não havia agenda e espaço para novos atletas amadores (a conhecida “panelinha”). Agora será tudo via aplicativo.

Continua após a publicidade

Para o gramado, além de jogos de futebol — por enquanto apenas a Portuguesa mandou partidas profissionais, incluindo o clássico contra o São Paulo, ocorrido em 29 de janeiro e vencido pelos tricolores —, a Allegra prepara dois shows. Em 29 de março se apresentará o cantor Luan Santana. Uma semana depois, nos dias 5 e 6 de abril, será a vez da dupla Jorge & Mateus. Para os eventos, são esperadas cerca de 30 000 pessoas, que observarão um palco montado na lateral do campo, de frente para os camarotes localizados à direita de quem entra pelo portão principal. “Nossa capacidade para grandes shows será de 40 000 pessoas, mas nas primeiras apresentações vamos reduzir o público”, afirma Barella.

Quadra externa: pintura e arquibancada novas
Quadra externa: pintura e arquibancada novas (Roberto Setton/Veja SP)

O anúncio das atrações iniciais pode esbarrar em uma questão jurídica que promete fazer muito barulho. Em 2017, uma decisão transitada em julgado do Superior Tribunal de Justiça (STJ) proibiu a realização de shows no Pacaembu que causem incômodo aos moradores vizinhos. A ação foi movida em 2005 pela Associação Viva Pacaembu, contra a prefeitura, ocasião em que uma liminar barrou os grandes eventos no estádio, que reuniam milhares de pessoas para ver performances de artistas mundialmente famosos, como Paul McCartney, Iron Maiden, Rolling Stones e Ozzy Osbourne.

“Estamos sabendo dos shows, mas antes de eles acontecerem não podemos fazer nada. Caso a decisão judicial seja descumprida, vamos discutir as medidas cabíveis”, afirma Sergio Livovschi, advogado da Viva Pacaembu.

Centro de convenções subterrâneo: até 8 500 pessoas
Centro de convenções subterrâneo: até 8 500 pessoas (Yghor Boy/Pacaembu/Veja SP)
Continua após a publicidade

Para Barella, os concertos musicais no Pacaembu deverão seguir as mesmas regras de outros equipamentos semelhantes. “Existe uma vedação para a questão da poluição sonora e nós vamos cumprir o que está previsto na lei. O que vale para Allianz Parque e Morumbi tem que valer para a gente. O Pacaembu tem que ser tratado da mesma forma.”

Não são apenas os vizinhos que contestam algumas questões relativas ao novo Pacaembu. Vereador do PT, o arquiteto e urbanista Nabil Bonduki ressalta que eventos realizados enquanto ainda há obras em andamento deveriam ocorrer com parcimônia, não de forma deliberada. “Alvará provisório é para um evento, de forma excepcional, mas a coisa virou provisória para sempre. Se houver algum acidente, o que pode acontecer, a prefeitura vai acabar sendo responsabilizada, pois alertamos do problema de emissão de muitos alvarás provisórios.”

Procurada, a secretária Elisabete França, da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, afirma que a emissão de alvarás provisórios respeita a lei, mas ressalta que está estudando uma forma legal de emitir uma autorização parcial para o Pacaembu. “É uma obra complexa, cheia de atividades”, diz França.

Escadas do centro de eventos: nova acessibilidade em todo o complexo
Escadas do centro de eventos: acessibilidade (Yghor Boy/Pacaembu/Divulgação)

A possibilidade de um acidente citado por Bonduki quase se tornou realidade em 21 de dezembro, durante duas partidas de futebol amador da Taça das Favelas. Uma chuva torrencial alagou a ala leste do estádio, impedindo a realização do segundo jogo. Diante do aguaceiro, o público precisou ser retirado de alguns pontos.

Continua após a publicidade

Dias depois, o Tribunal de Contas do Município enviou um ofício à prefeitura cobrando respostas da Allegra sobre o ocorrido. “Nos informaram que houve o entupimento da rede de águas pluviais e que o problema foi solucionado”, explica o presidente do TCM, Domingos Dissei. “Acompanhamos o contrato desde o início e agora vamos cobrar a prefeitura para melhorar os acessos ao estádio.”

Barella, na arquibancada recém-inaugurada: jogos e shows
Barella, na arquibancada recém-inaugurada: jogos e shows (Roberto Setton/Veja SP)

A remodelação e reinauguração de um espaço querido dos paulistanos, após um barulhento processo de concessão (houve contestações judiciais, já superadas, e há uma ação popular em curso que pede a anulação do processo dos naming rights), fará com que espaços vizinhos importantes, porém subutilizados na maior parte dos dias, ganhem novos usos.

É o caso da Praça Charles Miller, que recebe desde 2022 a já famosa Feira do Livro. Previsto para ocorrer de 14 a 22 de junho, o evento tem tudo para interligar os dois públicos (literário e esportivo). “O livro pode ser muitas coisas: literatura, esporte, arte, música. Cabe muita coisa dentro de um livro. O Pacaembu é importante para a cultura e pode existir uma boa integração conosco e com a praça”, afirma Paulo Werneck, organizador do certame literário.

Alagamento em dezembro: resposta enviada ao TCM
Alagamento em dezembro: resposta enviada ao TCM (../Divulgação)

Ainda sobre a Praça Charles Miller, objeto de desejo da Allegra para ser incorporada à concessão do estádio (e transformada em quadras e em piscina de ondas), após uma negativa do prefeito Ricardo Nunes, as conversas no Edifício Matarazzo voltaram a ocorrer. Icônico para os paulistanos e para o esporte, o velho-novo Pacaembu vai gradativamente voltando a fazer parte do cotidiano da cidade.

Como narrou milhares de vezes o também saudoso locutor Fiori Gigliotti, falecido em 2006: “Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo no Pacaembu”.

 

 

Boxe com informações
(../Veja SP)
Boxe com informações
(../Veja SP)

Publicado em VEJA São Paulo de 14 de fevereiro de 2025, edição nº 2931.

Publicidade

Essa é uma matéria fechada para assinantes.
Se você já é assinante clique aqui para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Domine o fato. Confie na fonte.
10 grandes marcas em uma única assinatura digital
Impressa + Digital no App
Impressa + Digital
Impressa + Digital no App

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.

Assinando Veja você recebe semanalmente Veja SP* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
*Para assinantes da cidade de São Paulo

a partir de R$ 29,90/mês

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.