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A guerra dos sexos

Por Walcyr Carrasco
19 mar 2011, 00h50 • Atualizado em 5 dez 2016, 18h13
  • Tenho um casal de gatos, Merlin e Shiva. O macho, Merlin, é alegre, brincalhão. Pede comida durante as refeições. Ronrona para ganhar carinhos. Shiva é arisca. Foge quando alguém se aproxima. Raramente aceita afagos. Todas as manhãs, acordo com Merlin deitado na minha cama. Há tempos, descobri que Shiva se refugia embaixo dela.

    — Que gata linda! — diz uma visita ao vê-la.

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    — Nem adianta querer pegar. Ela não deixa — aconselho sempre, enquanto Merlin conquista pedacinhos de pão.

    Há poucas manhãs sofri um choque. Acordei com rosnados furiosos. Shiva deitada a meu lado. E Merlin mordendo seu pescoço com a fúria de um pequeno tigre. Nunca o ouvira emitir sons tão furiosos. Gritei:

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    — Merlin!

    A gata correu, apavorada. Fugiu até a sala e se escondeu sob o sofá. Impossível tirá-la de lá. Voltei para a cama. Merlin ronronou, doce.

    — Merlin, você é um macho alfa — acusei.

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    Shiva não é arisca. É uma oprimida. E o opressor faz parte da família. É a guerra dos sexos em sua versão mais primitiva. E nem existe Lei Maria da Penha para felinos.

    E o pior: o safado do Merlin se comporta como o gato mais gentil do mundo quando lhe convém!

    Luna, minha cadela husky, está bem crescida. Desde filhote brinca com Merlin. Sobe em cima dele e morde suas orelhas. Delicadamente, apesar dos dentões. Merlin adora. Vira um brinquedo nas patas da cachorra. Outro dia o acusei, firmemente:

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    — Acha bonito tratar mal sua companheira felina? E se jogar nas patas da outra, que chegou depois?

    As damas também brigam entre si. Luna é ingênua. Achou que também podia brincar com Shiva. Filhotinha, ganhou unhadas nas primeiras aproximações. Cresceu. Dia desses tentou, com redobrada confiança. Do sofá vi quando se aproximou de Shiva abanando o rabo. Shiva eriçou todos os pelos. Parecia uma gata de bruxa. Luna deu mais dois passos. Apesar de ser muito menor, Shiva ergueu as patinhas, pronta para unhá-la. E Luna correu.

    Agora vivo esse drama no meu lar! Merlin oprime Shiva. E rola nas patas de Luna. Shiva reage atacando Luna. Merlin, o falso, faz cara de santo em todas as ocasiões. É digno de filme francês. Segundo uma amiga, todos os homens são assim: oprimem as companheiras e facilitam com as novidades! É o homem que se comporta como gato ou o contrário?

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    Sou um sujeito liberal. Não posso permitir um comportamento tão machista em meu próprio lar. Resolvi aumentar a autoestima de Shiva. Passeio de gatinhas pelo apartamento para encontrá-la embaixo dos sofás. E depois a pego no colo, mesmo à força. Faço carinhos e digo:

    — Shiva, você é linda. Eu te amo! Ah, gatinha querida, querida…

    Em momentos de mau humor, ela se contorce e me arranha, para fugir. Um amigo psicólogo diz que o mesmo acontece em terapia: há pacientes que arranham e fogem! Às vezes ela se aproxima miando desesperadamente. Isso sempre acontece quando tenho pressa para sair. Mas eu a pego no colo gentilmente. Afago-a e ofereço-lhe reforço moral. Depois voo para meu compromisso com a roupa cheia de pelos. O problema é que agora Luna também se sente solitária. Uiva e gane. Nessas ocasiões, vou ao terraço e a boto no colo:

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    — Luna, minha querida! Ah, minha cachorrinha… Shiva vem até a porta de vidro e nos encara, de rabo arrepiado. Magoa-se com a traição. O que essa pobre gata pensará do mundo masculino?

    Nunca imaginei que a guerra dos sexos fosse tão instintiva. E penso: será que nós, homens e mulheres, não somos muito parecidos, afinal?

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